
O conferencista Matt Ridley conta na conferência TED como aconteceu o progresso humano. Só teria sido possível através da troca de ideias. Matt diz: “As ideias têm de transar para se desenvolver. No final das contas, não é importante quão espertos sejam os indivíduos. O que realmente importa é quão inteligente é o cérebro coletivo.” Eu curti! Não é bacana deixar as ideias do Brasil transar com as ideias do mundo? Isso é inspirar novas ideias. Veja o vídeo colocando as legendas em português (16 min), inspire-se e transe com suas idéias no Hype/papo da cidade de Ron Orp's Mail.
"O artigo abaixo foi originalmente publicado em Bitch:Feminist Response to Pop Culture , edicão no. 47, Verão 2010”
Uma Apresentação do termo priv-lit, pelo tradutor
O que é priv-lit segundo Diana-Brown Barnes:
Priv-lit poderia ser traduzida como literatura da mulher privilegiada. O conceito foi criado por Diana-Brown Barnes, uma das autoras do artigo abaixo e é usado para descrever os livros, artigos e ensaios que assumem que os consumidores, principalmente mulheres, são ricas, ao propor a elas regimes de bem estar.
Diana descreve priv-lit, da seguinte forma:
"Esse gênero literário tem por objetivo expresso a iluminação espiritual, existencial, ou filosófica, que depende de um duro e difícil trabalho, empenho e paciência por parte das mulheres, para enfrentar barreiras nesse caminho que são fundamentalmente de natureza econômica. Essa literatura perpetua vários mitos negativos sobre as mulheres, dinheiro e responsabilidade. E exige disposição para gastar qualquer quantia, enquanto abandonamos a família, a profissão ou outras responsabilidades, para atingir objetivos definidos de forma nebulosa em nosso caminho em direção a “totalidade”. Pior ainda, o pressuposto inerente à busca da totalidade é que as mulheres são profunda- e inerentemente falhas, tendo necessidade de melhorias constantes, e que aquelas de nós que não investem, ou não podem investir para abordar estas falhas estão condenadas ao sofrimento."
Comer, Rezar, Gastar
Lit-priv e o novo iluminado sonho americano
Artigo de Joshunda Sanders e Barnes Diana-Brown, ilustrado por Ana Mouyis, publicado em 2010 , arquivado em: Cultura do consumidor; etiquetas: Eat Pray Love , Elizabeth Gilbert , Oprah , priv-lit.
Durante décadas a literatura de auto-ajuda e uma obsessão com o bem estar têm cativado a imaginação de inúmeros americanos liberais. Mesmo hoje, num dos momentos econômicos mais difíceis das últimas décadas e que aperta nossos orçamentos, nos dizem que nosso espírito ainda pode ser rico. Livros, blogs e artigos saturados com planos fantásticos de bem estar para as mulheres parecem ter-se multiplicado, retratando viagens (existenciais ou geográficas) que oferecem o sagrado contra um pesado investimento de tempo, dinheiro ou de ambos. Não há fim para as luxuosas opções a disposição de uma mulher nos dias de hoje, se ela estiver disposta a arriscar tudo pela iluminação. E, passando por Oprah Winfrey e Elizabeth Gilbert e indo até as mulheres comuns, que desviam seus recursos financeiros para fazer a “postura do cão olhando para baixo” em Bali, a indústria da iluminação assumiu decididamente um esplendor feminino.
Provavelmente passar-se-ão alguns anos ainda até que as consequências para as mulheres da recém-descoberta vulnerabilidade econômica dos Estados Unidos sejam totalmente compreendidas. Os relatórios atuais mostram uma combinação de estatísticas auspiciosas e deprimentes: O New York Times, por exemplo, relata que mais de 80 por cento dos postos de trabalho que se evaporaram eram ocupados por homens e que a proporção de mulheres casadas que ganha mais que seus maridos passou de 4 por cento, em 1970, para 22 por cento, em 2007. Isso porém não é um ganho tão grande, considerando que as estatísticas do Departamento de Trabalho dos EUA, de 2008, mostram as mulheres ainda estão ganhando somente cerca de 75 centavos para cada dólar auferido pelos homens. No entanto, mesmo que os relatórios sobre desemprego, recuperação econômica e execuções hipotecárias sugiram que ninguém está imune a riscos nessa recessão, a popularidade da mídia de saúde e bem estar para mulheres continua e, certamente, cresce e se fortalece.
"Viva sua melhor vida!" entoa Oprah Winfrey em seu show, em seu site e em sua revista, com desgastante tenacidade. Coma couve. Perca peso. Invista numa casimira eterna. Encontre o perfeito vestidinho preto. Mas, embora Oprah pregue, da boca para fora, “empoderamento”, grande parte de seus conselhos realmente afastam as mulheres para longe da vida política, econômica e emocional, e promovem, com zelo evangélico, “empoderamento” como materialismo e dependência.
Como escreve Karlyn Crowley na recente antologia “Histórias de Oprah: A oprahficação da cultura americana” (http://bit.ly/bP0ShN), Oprah Winfrey tornou-se a porta-voz do comportamento dominante da espiritualidade da Nova Era, porque "junta a intimidade e a individualidade do movimento Nova Era com a adulação e o poder de um “700 Club” - como uma missão (700 Club: talk show na TV americana e brasileira com viés pentecostal/batista, e que frequentemente relaciona histórias pessoais com passagens da Bíblia (http://bit.ly/cFeWM9)N.d.T.”. E não é surpreendente, que tenha sido o imprimatur do Oprah's Book Club, que fez do livro de Elizabeth Gilbert “Comer, Rezar, Amar”(Ed. Objetiva, em português - N.d.T.), o fenômeno editorial que ele é. Mais de 5 milhões de cópias do livro em brochura foram impressos até hoje, embora a primeira impressão do livro, em 2006, tenha sido uma modesta edição de 30 mil cópias em capa dura. O Wall Street Journal estimou que o livro faria mais de US $ 15 milhões em vendas até o final de 2007, e ele ficou na lista dos mais vendidos do New York Times por mais de 155 semanas.
Comer, Rezar, Amar conta em detalhes a decisão de Gilbert em deixar um casamento insatisfatório e embarcar num safári internacional de auto-realização. (A Editora americana Viking subsidiou as improvisadas "férias” de um ano). Gilbert comeu comida exótica, meditou em lugares exóticos e teve interlúdios românticos exóticos; seguiram-se conflitos culturais e iluminados, como a desajeitada tentativa paternalista de Gilbert de comprar uma casa de uma mulher pobre da Indonésia. O livro poderia facilmente ter sido chamado Rica, Chorona, Branca.
Não seria muito razoável exigir que toda mulher que deseja melhorar de vida seja pobre, não-branca ou, de alguma outra forma, representante da diversidade, a fim de ser levada a sério. Mas Comer, Rezar, Amar e sua posição como um guia de uma vida plena e “empoderada” para a “mulher comum” encarna uma literatura da privilégiada (priv-lit) e tipifica a destrutiva cacofonia do gênero a respeito da insegurança, das despesas, e do falso bem estar.
Que elas comam couve
Comer, Rezar, Amar não é o primeiro livro desse tipo, mas é um perfeito exemplo do gênero priv-lit, ou seja, literatura ou mídia, cujo objetivo expresso é o desenvolvimento espiritual, existencial ou a iluminação filosófica, e que depende de um duro e difícil trabalho, empenho e paciência por parte das mulheres, mas cujas barreiras reais a serem vencidas são sobretudo de ordem financeira. Se as consumidoras falharem, o gênero as considera responsáveis, por não estarem prontas a serem sérias, não "querendo" o suficiente, ou por não se colocarem em primeiro lugar, embora não ofereça soluções concretas para as tarifas astrônomicas - financeiras assim como sociais - que excluem todas, a não ser as mais ricas, de participar.
O gasto é justificado por seus supostos objetivos saudáveis - aceitação, amor -próprio, capacidade de curar as feridas do passado psíquico e romper com os padrões destrutivos. No entanto, muitas vezes, a agitação sobre vantagens secundárias (perda de peso, por exemplo, ou pele perfeita) afoga a discussão menos superficial. Winfrey, de novo, é a principal intermediária para esse comportamento: como Jennifer L. Rexroat, contribuidora de Histórias de Oprah, aponta, Winfrey se apresenta como uma "feminista de fato", com um sonho americano tradicional de fundo, que se recusa a sucumbir à vida de esposa e gosta de se mimar . Às vezes, isso envolve adotar as obras dos escritores de espiritualidade Gary Zukav ou Eckhart Tolle, que aparecem ambos regularmente em seu show. Às vezes, significa falar sobre o ganho de peso e a auto-aversão. Às vezes, exige a compra de um anel de diamante rosa da amizade.
Não é nenhum segredo que, segundo a máquina de marketing americana, estamos vivendo em um mundo "pós-feminista’, no qual o que muitas pessoas entendem por "empoderamento" é o poder de gastar seu próprio dinheiro. Mulheres de vinte, trinta e mais alguma coisa parecem mais ansiosas do que nunca em abraçar seu "direito" em participar de dietas drásticas e de sua "escolha" em conseguir implantes mamários, obcecadas por sua idade, e aplicando os critérios de personalidade de Sex and the City para suas amigas (Você é uma Miranda ou uma Samantha? Conseguiu seu brasileiro e seu botox?). Esse marketing e as mulheres que nele caem, assumem que o trabalho do feminismo já foi praticamente feito. Talvez seja por que, ao contrário das mulheres americanas que as precederam, poucas das pessoas que fazem ou consumem esses produtos e mensagens culturais foram pressionadas a prosseguir o curso de secretariado em vez da escola de medicina, foram acusadas de "provocar" a agressão sexual ou ouviram que dirigir e votar era algo intelectualmente além de suas possibilidades. Essa perspectiva facilita que o anti-feminismo, incorporado no jargão da priv-lit do bem estar, ganhe impulso.
E numa economia ferida, esse pensamento torna-se ainda mais problemático. "Ostentar luxo é estar totalmente por fora nesta bosta de economia", escreveu um blogueiro do YogaDork num post intitulado “Férias com tudo incluído para as feridas da recessão - Uma ostentação aceitável” (http://bit.ly/cCKUqb). "Mas, e se for para uma experiência de aprendizagem em auto-ajuda?". O blogger sugere, ao refletir sobre a importância da saúde em relação a economizar alguns centavos, que se “iogues e outros" acham que um retiro vale uma ostentação, deveriam encará-la. E, de fato, quando a auto-ajuda está no cardápio, as pessoas parecem estar comprando, ou pelo menos aceitando.
No outono de 2009, o Los Angeles Times publicou um artigo sobre mulheres (e alguns homens) em boa situação de vida saindo de seus empregos para meditar em isolamento durante três anos, pelo valor de 60’000 dólares por ano. Outra apresentação de jovens gurus de auto-ajuda feminina (as suas qualificações exatas para serem gurus permanecem obscuras), cobrando centenas de dólares por hora para aconselhar outras mulheres sobre espiritualidade e boa alimentação, teve posição de primeiríssima, concedida na primeira página da sessão “Estilo”do New York Times.
Sarma Melngailis, uma dona de restaurante em Nova Iorque , que escreve sobre comer alimentos crus e orgânicos nos blogs welikeitraw.com e oneluckyduck.com, promete a seus leitores - a maioria deles mulheres - que, se elas puderem simplesmente desistir de seu café com Dunkin’ Donuts e substituí-lo por sua água de coco a 9U$ e por milk-shakes de nozes a 12U$, também poderão ser felizes e saudáveis. (Ela é muito consistente ao propagandear a capacidade de seus produtos em combater ressacas e também em “sexyficar” a aparência.) A agora famosa franquia do livro de cozinha Skinny Bitch (Magra e Poderosa) mergulha em profundidades ainda mais sinistras, com sua insistência em que as mulheres podem parar de beliscar à noite com a atitude “ah-tão-simples” de contratar um chef pessoal com formação culinária vegetariana. A empresa web da atriz Gwyneth Paltrow goop , usa manchetes de seção sedutoras e imperativas ("Tenha", "Faça", "Seja") e o slogan sem sentido "Nutra seu aspecto interior" para estabelecer claramente uma relação retórica entre ação, gastos e a existência como um todo. Até Julie e Julia, o blog que se tornou um livro, que se tornou um filme de sucesso, é cúmplice na divulgação da tendência. A história de Judie Powell - uma profissional entediada, cuja jornada de auto-descoberta consiste em trilhar seu caminho ao tentar cozinhar todas as receitas de Julia Child - apresenta uma lista de compras cujos custos por uma refeição rivalizam com a alocação mensal de tickets-alimentação de muitas famílias americanas.
A priv-lit perpetua várias suposições negativas sobre as mulheres e sua relação com o dinheiro e a responsabilidade. A primeira é que nós mulheres podemos ou devemos estar dispostas a gastar com extravagância, deixando nossas famílias ou abandonando nossos empregos, a fim de se encaixar em noções mal definidas do que é ser "inteira". Outra suposição é a noção infantilizadora de que precisamos de guias, que muitas vezes são pessoas estranhas que não conhecem as especificidades de nossa histórias espirituais, financeiras e emocionais, para dizer qual é o nosso melhor caminho para avançar. A hipótese mais problemática, e também a que liga mais de perto a atual ideologia às formas tradicionais aceitas de misoginia, é que as mulheres são inerente e profundamente defeituosas, necessitando de melhorias consistentes ao longo das suas vidas, e que aquelas que não investem na abordagem dessas falhas estão, em última instância, condenadas a tornarem a si mesmas, e quem sabe a outros, em sofredores.
Apesar da priv-lit preceder a atual recessão em pelo menos alguns anos, o potencial que essa literatura da privilegiada tem em causar um impacto negativo é maior hoje do que nunca. A atitude mental “recessiva” de hoje, induz mais a gastar discretamente do que a gastar menos. Priv-lit tem uma abordagem similar: ao esconder assuntos familiares por trás de iluminação ambiental e de velas orgânicas perfumadas, o gênero mascara e promove as expectativas destrutivas da feminilidade tradicional e da cultura de consumo, tornando-as assim muito mais difícil de combater. Como a blogueira de Jezebel.com Sadie Stein observou, em setembro de 2009, "nueva-Bradshaws penduraram suas Manohlos [sic] (os sapatos Manohlo Blahnik de “Sex in the City” N.d.T.) e aposentaram seu cosmos ... e perseguem a banalidade diferentemente ... em tons de rosa, em uma espiritualidade açucarada revestida de doces de garota." A entrada do blog, que menciona Comer,Rezar, Amar; Magra e Poderosa e O Segredo, é uma resposta específica ao odioso artigo “novos gurus” do New York Times, mas o argumento também pode ser visto como uma crítica cortante e precisa da priv-lit como gênero literário.
Nos sonhos começam as responsabilidades?
Talvez a priv-lit seja uma manifestação de como gostamos de fantasiar sobre coisas que não temos ou não podemos ter. No caso da priv-lit, a fantasia excitou seus criadores. Ao invés de oferecer um modelo a ser buscado através da realização consistente de metas progressivas e realistas, a priv-lit aterroriza seus consumidores com cenários do pior que pode vir a acontecer e infere que o auto-aperfeiçoamento demonstra-se por "atos" de desperdício.
Claro, é o direito de qualquer mulher que trabalha duro para o que ela tem, gastar seu dinheiro para tornar sua vida melhor. Mas a pressão para obter felicidade através da compra de um determinado livro (como Comer, Rezar, Amar, ou, mais recentemente, O Projeto Felicidade de Gretchen Rubin), da participação num retiro de ioga, ou da contratação de um guru, afasta as mulheres para mais longe de si mesmas, da simplicidade adotada na literatura da psicologia positiva e do tipo de reflexão cuidadosa necessária para manter, a longo prazo, a paz interior.
A história da priv-lit diz que é verdade que bem estar exige sacrifícios econômicos extremos em relação à família e a profissão, mas aquelas que o fizerem serão recompensadas e atingirão a iluminação definitiva de um tipo ou de outro. (O melhor exemplo recente é a própria Gilbert, pois ela foi recompensada duas vezes em sua autobiografia espiritual por suas vitórias como viajante pelo mundo - como resultado se casou com um quentíssimo homem brasileiro e se deu bem com um outro best-seller: Committed [Comprometida] de 2010).
Infelizmente, essa história é uma mentira: como um provedor de serviços de alto nível de coaching (que deseja, por razões óbvias, permanecer anônimo) comenta: "Na nossa linha de negócios, temos um ditado que diz: Não conserte o cliente." Após os mentores ensinarem aos clientes atingir a liberdade e a iluminação, eles podem dizer adeus as altas recompensas que ganham quando declaram aos clientes que precisam de mais ajuda.
"Uma dos aspectos brilhantes do gênero de auto-ajuda como um todo é conter esses vários tópicos ou temas contraditórios, todos entrelaçados, enfatizados de maneira diferente em momentos diferentes," diz o Dr. Micki McGee, um sociólogo e crítico cultural da Fordham University e autor de Self-Help, Inc: Makeover Culture in American Life . Self-Help, Inc: (A Cultura da Aparência Pessoal na Vida Americana. Auto-Ajuda, Inc.). A cultura do auto-aperfeiçoamento, produz geralmente o efeito contraditório de minar a autoconfiança, sugerindo que todos nós nos encontramos em constante necessidade de um aperfeiçoamento difícil e frequentemente caro). Há perigo em investirmos excessivamente nessa literatura, não só financeiramente, mas também psicologicamente. "
McGee que, para pesquisar seu próprio livro, passou cinco anos imerso na literatura de auto-ajuda, é rápido em apontar que essa tendência em gastar com o auto-aperfeiçoamento veio para ficar por um longo período. Mas, no atual clima econômico, as implicações financeiras reais para aqueles que investem ou tentam investir dessa forma, podem ser piores que em tempos econômicos mais saudáveis e os gastos em si podem estar se tornando mais e mais um fetiche. Desde o final dos anos 1960, os fenômenos econômicos, tais como a estagnação do salário combinada com o aumento dos custos da habitação, da saúde e de outras necessidades básicas significam que, para a maioria dos americanos, tempo realmente equivale a dinheiro." Cada vez mais é escasso o número de pessoas que realmente têm dinheiro para tirar um ano de folga e viajar para a Índia ou ir a um retiro de yoga por mil dólares", diz McGee. "Esbarramos numa ênfase da simplicidade e da sobriedade no contexto da recessão, porém, nas entrelinhas e incorporada a essa ênfase, sugere-se consumir mais” - e isso vem importado, segundo ela, da literatura de auto-ajuda contemporânea de todos os tipos.
McGee conecta a persistência destes ideais contra-intuitivos ao fenômeno da estratificação social descrita pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu. Em sua obra de referência, de 1984, “Distinção - Crítica Social do Julgamento”, Bourdieu explicou que preferências estéticas e culturais indicam, assim como formam estratificações de classe, pois as tendências destas preferências aparentemente mapeiam as posições dos indivíduos em hierarquias sociais. Conforme expresso por McGee, no âmbito do status-quo dos sistemas de classe, “o gosto e outros tipos de capital cultural são emblemáticos tanto para o status alcançado, como para o status supostamente merecido." Portanto, aqueles que rezam pela cartilha da priv-lit operam sob a falsa suposição que 1) investir concretamente demonstra o mérito dos que o fizeram. 2) ter investido demonstra a natureza merecedora de quem o fez. Em tempos de estresse financeiro, quando aqueles que querem existem em proporção ainda maior do aqueles que têm, esse feedback em sequência pode se intensificar, porque o desejado fica ainda mais inatingível e as consequências do fracasso, ou seja, a implicação de que aqueles que não levam suas vidas de acordo com as normas receitadas pela priv-lit acabarão por se dar mal de tal forma que o risco de perder seus empregos, casas, ou independência, entre outras coisas, parece tornar-se muito pior.
A priv-lit transformou "O nosso próprio quarto de Virginia Woolf" (título de um ensaio de Vírginia Woolf geralmente visto como um texto feminista N.d.T.) num espaço existencial que se deve acessar através de uma série muito cara de quartos reais - um estúdio de ioga por 120 U$ a hora, uma casa de campo na Indonésia, um bar de sucos hype em Lower Manhattan East Side. O gênero é especial ao refletir uma inversão de seu próprio sistema de valores explicítos: priv-lit diz às mulheres que elas devem fazer coisas caras que são boas para o corpo, mente ou alma. Mas o oculto e implícito, e talvez a parte do gênero que mais atrai seus ávidos consumidores, é a idéia anti-feminista que as mulheres devem tornar-se saudáveis para que as pessoas gostem delas. Elas irão encontrar parceiros, terão dinheiro, perderão peso e serão fogosas . Deus nos livre se uma pessoa gorducha, solitária e solteira, realmente tentasse alcançar a felicidade, a saúde e o equilíbrio para e por si mesma. É o lobo malévolo do show da aparência ou a gangue depravada do ensino médio, vestida com a pele de cordeiro de bem estar.
Mudando a Maré
A verdade é que muitas entre nós se limitam a manter as modestas vidas que lutamos para criar, melhorando a nós mesmas por conta própria, deduzindo incríveis prestações, nos levantando cada dia, indo trabalhar e cuidando de nós mesmas e de nossas famílias. A priv-lit não é uma resposta viável para as preocupacões de vida da maior parte das mulheres e agir como se fosse assim não vai levar a nada que preste. Já passou da hora de exigirmos que as narrativas verdadeiras tornem-se visíveis e, ousemos dizer, comercializáveis.
A maré da priv-lit mostra poucos sinais imediatos de refluxo. O filme Comer, Rezar, Amar (filmado parcialmente naquele que é o bairro mais enobrecido, Brooklyn Heights) chega aos cinemas neste verão e as sequelas do filme Sex and the City, com suas inúmeras compras de sapato como metáforas de terapia, chegarão aos teatros no fim da primavera. Quanto à Oprah, seu talk show está condenado a terminar em 2011 mas, com toda uma rede de televisão a caminho, seu império e seus líderes ungidos poderão ficar conosco por décadas. Mas o futuro também contem possibilidades mais inteligentes.
Paige Williams, cuja história pode, ironicamente, ser encontrada em Oprah.com (http://bit.ly/c2wqyx) estava deprimida a ponto de debilitar-se, obesa, desempregada e entrou em colapso quando começou a se esforçar para mudar sua vida. Vivendo com sua mãe e, muitas vezes, doente demais para sair da cama, ela claramente não estava vivendo sua “melhor vida". Williams adiou assumir um emprego para passar dois meses recuperando o controle de seu corpo, sua mente e sua vida, através de um regime intensivo de 60 dias de Bikram Yoga. Partes da história de Williams encaixam-se bem nas alegorias da auto-ajuda e da priv-lit: Ela encera-se poéticamente para se espremer em um par de jeans magricelas, e muitos argumentariam que o simples fato de ter os recursos necessários para obter um diagnóstico de depressão e obesidade (sem dizer nada sobre o regime Bikram propriamente dito) é uma sólida prova que nossa protagonista está melhor do que o americano médio. Mas admitir com franqueza que tal intervenção é um sacrifício e além do mais um risco, prova existirem duas coisas: uma voz mais autêntica e uma protagonista que se preocupa com ser completamente saudável ao invés de demonstrar adesão total à classe ou perseguir ideais dominantes de beleza, possibilidades de casamento e méritos em geral. E o fato de sua história aparecer no contexto dominante, significa que mais mulheres estão se expondo a esta abordagem comparativamente mais atenuada. Talvez não seja uma solução para o problema da priv-lit, mas é um bom passo para se encontrar uma.
Melhor ainda são movimentos como The Great American Apparel Diet (A Grande Dieta Indumentária Americana) (http://bit.ly/cKMpZn). Ela não deve ser confundida com um plano alimentar sancionado pela diretora-executiva da American Apparel, Dov Charney, aquela iconoclasta de misóginos modernos norte-americanos. GAAD é realmente um movimento iniciado por um grupo de mulheres americanas que decidiu passar um ano inteiro sem comprar uma única roupa nova. Desde a sua criação, em setembro de 2009, o grupo cresceu e representa membros de 17 estados e de seis países. "Algumas estão cheias e cansadas do consumo em geral, enquanto outras estão preocupadas com o consumo e o meio ambiente", observa a página do grupo na internet. "Nós todas temos nossas próprias razões para embarcar neste projeto, mas tudo isso se resume ao seguinte... quem somos nós sem algo novo e hype em nossos armários? Veremos ".
A admissão de que muitas destas mulheres sentem ansiedade intensa na ausência do materialismo, que tem sido já há muito tempo associado a idéias como ter sucesso em se tornar uma mulher feminina, é um primeiro passo decisivo e revolucionário que as mulheres deveriam ter segurança de assumir. E não comprar é, por definição, liberdade, o que significa que qualquer pessoa com bastante motivação e vontade de dizer não ao status quo, pode participar desta forma de busca de alma. (Embora, obviamente, o projeto opere com seu próprio pressuposto, ou seja: não gastar dinheiro é uma escolha e não uma necessidade absoluta.) A narração de Williams e o embargo de vestuário são provas de um movimento progressivo não-tradicional de mulheres comprometidas em substituir modelos de salvação espiritual e de paz existencial elitistas e baseados no consumo, por apostas genuínas em fazer muito com pouco, parando de ouvir os conselhos diretivos de cima para baixo em como ter uma boa vida.
Se mais mulheres se disporem a deixar seus medos de lado, abrirem seus olhos para caminhos para o bem estar a custo zero ou a baixo custo, e posicionar-se como essencialmente dignas ao invés de profundamente falhas, priv-lit poderá logo migrar para um novo e merecido lar: a seção de ficção. E quando isso ocorrer, poderemos talvez ter sucesso em mostrar que, para cada mulher rica e insegura que pode pagar para atingir grandes alturas de si-mesma e fazer grandes despesas, existem milhares de outras, cujas vidas têm menos charme comparativamente e que são mais felizes trabalhando com alternativas criativas e saudáveis, em vez de gastar naquilo que desejam movidas por terror, e cujas histórias, um dia, serão valorizadas pela força que comunicam e não pelas fantasias que vendem.
Joshunda Sanders é uma repórter de religião em Austin, Texas. Ela está obcecada com a literatura de auto-ajuda desde a sexta série. Fale com ela em joshunda@gmail.com. Diana Barnes-Brown é uma escritora e uma entusiasta do sanduíche que vive em Brooklyn, NY. Suas intervenções de auto-ajuda favoritas são fomentar os cuidados de pit bulls e gritar contra a televisão. Você pode contatá-la em dbarnesbrown@gmail.com
http://bitchmagazine.org/article/eat-pray-spend
Bitch Media é uma 501(c)3 organização sem fins lucrativos
Tradução: Marco André Schwarzstein
Revisão: Guacira Cézar de Oliveira
Com autorização expressa das editoras












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